O que há em comum entre uma criança e um líder inovador?

O que há em comum entre uma criança e um líder inovador?

O que há em comum entre uma criança e um líder inovador?

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“Quando eu tinha 8 anos e estava na escola primária, uma professora distribuiu entre nós, alunos, o desenho de um coelho que deveríamos colorir. As folhas eram mimeografadas, como se fazia na época, e todo mundo se animou. Os desenhos seriam expostos nas paredes das salas.

No dia seguinte, quando cheguei à aula, corri para procurar meu coelho. Andei por todas as salas e corredores, e nada. Fui perguntar para a professora se ele tinha caído. Para minha surpresa e decepção, ela disse que meu coelho não estava à mostra porque eu o tinha pintado de roxo. Coelhos não são roxos, argumentou ela.

Eu era uma criança tímida e fiquei com o rosto queimando de vergonha quando a professora disse aquilo. Todas as minhas amigas caçoaram de mim por ter pintado um coelho tão feio que não foi para o mural”.

Essa história real veio à tona há algumas semanas, na forma de um depoimento espontâneo, durante o curso “Ibelt”, de formação de gestores de inovação, ministrado pela Pieracciani, a consultoria da qual sou sócio. Mesmo tendo se passado há mais de 25 anos, foi contada com detalhes vívidos, como se tivesse acontecido ontem, por uma jovem mulher que hoje trabalha numa das empresas mais inovadoras do país. Ela se emocionou ao relembrá-la, e quem ouviu também ficou tocado ao perceber quanto um episódio como aquele pode ser ao mesmo tempo comum e destruidor. No entanto, aquela garota, cuja forma diferente de ver o mundo foi punida por uma professora que acreditava estar fazendo o melhor para educá-la, conseguiu, milagrosamente, manter viva sua capacidade de inovar.

Situações como essa deixam marcas profundas nas crianças. É o primeiro e duríssimo choque entre a capacidade natural que elas têm de inovar e o inflexível mundo dos padrões. Ainda hoje, a mesma cena se repete todos os dias, milhares de vezes, nas escolas – e nas empresas. Inovadores são frequentemente sujeitos à dor da desilusão e à exclusão. As ideias que foram alvo desse julgamento acabam por morrer e, com elas, vai-se embora grande parte da capacidade de inovar de seus autores. Afinal, aprendemos o tempo todo que é preciso planejar para fazer certo. Arriscar o diferente e sonhar com o novo são traços de indisciplina, nas escolas e nas empresas. As pessoas são treinadas para tornarem-se frias gestoras de orçamentos, administradoras de padrões.

Veja que paradoxo: nesse mundo maluco em que vivemos e trabalhamos, as empresas mais bem-sucedidas são justamente as mais inovadoras. Ou seja, aquelas que buscam e valorizam as características de pessoas inovadoras em seus times. Justamente aquelas características que a escola convencional se esforça para podar nas crianças, porque se confundem com rebeldia e falta de atenção. No atual momento, em que há consenso sobre a necessidade de um país mais inovador, é importante nos organizarmos para criar e oferecer aos pais, professores e às crianças estratégias para manter viva a capacidade de inovar.

Todos nascemos inovadores. Quando crianças, temos essa capacidade à flor da pele. Ela também está presente nos líderes mais inovadores que conhecemos. De alguma forma, essas lideranças conseguiram preservar esse traço.

Acredito que é possível voltar a inovar como quando tínhamos 8 ou 10 anos de idade; quando sentíamos que era possível fazer melhor, o que nos instigava a sonhar, arriscar e transformar – atitudes típicas da personalidade inovadora; quando desenhávamos mais, ríamos mais. Quando uma simples cadeira tombada no chão virava um carro. Nossas brincadeiras, descobertas e emoções infantis eram, na verdade, inovação serial e de qualidade.

É isso que as empresas procuram nos profissionais de hoje.

Aprender foi fácil. Difícil é desaprender. Espero que consiga. Que recupere o inovador adormecido dentro de você e tenha sucesso!

 

Artigo publicado originalmente no Brasil Post em 2 de setembro de 2014: